Cárcere e gênero no Brasil
da lógica masculina da prisão à crise de direitos e segurança pública
Palavras-chave:
mulheres, legislação penal, equidade, encarceramento feminino, segurança públicaResumo
O presente trabalho analisa criticamente o sistema prisional brasileiro sob a perspectiva de gênero, destacando as fragilidades das leis penais na garantia dos direitos das mulheres privadas de liberdade. Para tanto, realizou-se uma pesquisa qualitativa, de natureza bibliográfica e documental, fundamentada na análise da legislação nacional, dos marcos internacionais — notadamente as Regras de Bangkok — e de dados do DEPEN e do CNJ. O estudo evidencia que o modelo prisional foi construído sob uma lógica masculina pretensamente neutra, que ignora as necessidades específicas das detentas, ferindo a dignidade das apenadas e comprometendo sua ressocialização. Observa-se que, apesar de avanços como a Lei de Execução Penal e a Constituição Federal de 1988, as normas tendem a se concentrar quase exclusivamente na maternidade, tornando invisíveis as mulheres que não performam esse papel. Conclui-se que essa negligência sistêmica, somada à superlotação, degrada a segurança pública ao falhar na reintegração digna das detentas e ao perpetuar o ciclo da criminalidade.
Referências
AGÊNCIA BRASIL. Brasil é o 3º país com maior população carcerária feminina do mundo. 2023. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/direitos-humanos/audio/2023-08/brasil-tem-terceira-maior-populacao-carceraria-feminina-do-mundo. Acesso em: 25 fev. 2026.
AGÊNCIA BRASIL. Relatório da Defensoria Pública de SP denuncia precariedade na entrega de absorventes em penitenciárias femininas. jan. 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2024-01/sp-defensoria-denuncia-violacao-direitos-humanos-em-prisao-feminina. Acesso em: 4 set. 2025.
ANGOTTI, B. Entre as leis da ciência, do Estado e de Deus: o surgimento dos presídios femininos no Brasil. São Paulo: IBCCRIM, 2012.
ANGOTTI, B.; SALLA, F. Apontamentos para uma história dos presídios de mulheres no Brasil. Revista de História, [s. l.], v. 32, p. 139-157, 2018.
BATISTA, V. M. Introdução crítica à criminologia brasileira. Rio de Janeiro: Revan, 2011.
BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.
BRASIL. Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984. Institui a Lei de Execução Penal. Brasília, DF: Presidência da República, [1984]. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7210.htm. Acesso em: 10 fev. 2025.
BRASIL. Lei nº 14.214, de 6 de outubro de 2021. Institui o Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual. Brasília, DF: Presidência da República, [2021].
BRASIL. Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Resolução nº 348, de 13 de outubro de 2020. Estabelece diretrizes e procedimentos a serem observados pelo Poder Judiciário, no âmbito criminal, com relação ao tratamento da população lésbica, gay, bissexual, transexual, travesti e intersexo (LGBTI). Brasília, DF: Conselho Nacional de Justiça, 2020. Disponível em: https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/3519. Acesso em: 9 jul. 2026.
BRASIL. Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura. Mulheres na prisão: Brasil: análise do Mecanismo Nacional de Prevenção. Genebra: Association for the Prevention of Torture, ago. 2024. Disponível em: https://www.apt.ch/sites/default/files/2024-12/brazil_npm_-_por.pdf. Acesso em: 22 maio 2025
BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. Plano Nacional de Política Criminal e Penitenciária (2020-2023). Brasília, DF: Ministério da Justiça e Segurança Pública, 2019. Disponível em: https://www.gov.br/depen/pt-br/composicao/cnpcp/plano-nacional-de-politica-criminal-e-penitenciaria/plano-nacional-2020-2023. Acesso em: 22 maio 2025.
BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Senad discute situação de mulheres encarceradas no contexto de drogas no Brasil. Brasília, DF, 12 maio 2023. Disponível em: https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/noticias/senad-discute-situacao-de-mulheres-encarceradas-no-contexto-de-drogas-no-brasil. Acesso em 22 maio 2025.
BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias - INFOPEN Mulheres. Brasília, DF: DEPEN, 2018.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Saúde sexual e saúde reprodutiva. 1. ed., 1. reimpr. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 527. Relator: Min. Luís Roberto Barroso. Decisão em sede de liminar referendada, julgada em 18 de março de 2021. Diário da Justiça Eletrônico, Brasília, 23 mar. 2021
BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e a subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
CARVALHO, S.; MACIEL, R. Suicídio no sistema prisional brasileiro. Revista Brasileira de Segurança Pública, [s. l.], v. 12, n. 1, 2018.
CELLARD, André. A análise documental. In: POUPART, Jean et al. A pesquisa qualitativa: enfoques teóricos e práticos. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 295-316
CHALITA, G. B. I.; SOUZA, C.R. N. O abandono de mulheres no cárcere e a distância da emancipação feminina. Revista da AJURIS, Porto Alegre, n. 150, 2020.
COIMBRA, C. M. B. Operação Rio: o mito das classes perigosas. Rio de Janeiro: Oficina do Autor, 2001.
CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Relatório sobre mulheres encarceradas no Brasil. Brasília, DF: CNJ, 2023.
CRENSHAW, Kimberlé. Demarginalizing the intersection of race and sex: a black feminist critique of antiques discrimination doctrine, feminist theory and antiracist politics. University of Chicago Legal Forum, v. 1989, n. 1, p. 139-167, 1989.
DAVIS, Angela. Estarão as prisões obsoletas? São Paulo: Boitempo, 2003.
DEPARTAMENTO PENITENCIÁRIO NACIONAL. Relatório de inspeções em unidades prisionais. Brasília, DF: DEPEN, 2014.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1975.
GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2008
GRAAFF, V. D. Anatomia Humana. 6. ed. São Paulo: Manole, 2003.
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Revista Isis Internacional, v. 9, p. 133-141, 1988.
HOLLOWAY, T. H. Polícia no Rio de Janeiro: repressão e resistência numa cidade do século XIX. Rio de Janeiro: FGV, 1997.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Regras de Bangkok: Regras das Nações Unidas para o Tratamento de Mulheres Presas e Medidas Não Privativas de Liberdade para Mulheres Infratoras. Bangkok: ONU, 2010.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Depression: Fact sheet. Genebra: WHO, 31 mar. 2023. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/depression. Acesso em: 27 abr. 2026.
PASTORAL CARCERÁRIA. Relatório sobre tortura em presídios femininos. São Paulo: Pastoral Carcerária, 2022.
PRINCÍPIOS de Yogyakarta: princípios sobre a aplicação da legislação internacional de direitos humanos em relação à orientação sexual e identidade de gênero. [S. l.: s. n.], 2006. Disponível em: yogyakartaprinciples.org. Acesso em: 9 jul. 2026.
QUEIROZ, N. Presos que menstruam. Rio de Janeiro: Record, 2021.
RIBEIRO, L. M. L. Encarceramento feminino e ressocialização: desafios contemporâneos. Revista de Direito Penal, [s. l.], v. 8, n. 2, 2020.
SANT, Nuno. Relatórios de inspeção das cadeias brasileiras no século XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1841.
SOARES, Luiz Eduardo. Justiça: pensando alto sobre violência, crime e castigo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011. STF – Supremo Tribunal Federal. HC Coletivo 143.641/SP. Brasília, DF: STF, 2018. Disponível em: https://portal.stf.jus.br. Acesso em: 10 set. 2025.
TV BRASIL. Aumento o número de mulheres presas por crimes relacionados à Lei de Drogas. 2023. Disponível em: https://tvbrasil.ebc.com.br. Acesso em: 15 set. 2025.
VARELLA, D. Prisioneiras. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Direitos autorais (c) 2026 Revista do Sistema Único de Segurança Pública

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 International License.




